Este ano a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) completa 40 anos. Criada em 1975 para apoiar os projetos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), hoje ela já atua no apoio a mais de dez instituições, tendo como diretriz o atendimento exclusivo ao seu cliente preferencial: o pesquisador. “Foi o fato de tornarmos a vida desse pesquisador mais fácil, em um país que prima pela burocracia e pelo controle, que nos permitiu conquistar o reconhecimento da nossa relevância”, disse o presidente da fundação, Alfredo Gontijo.

Em comemoração ao aniversário da fundação, o atual presidente concedeu ao projeto uma entrevista que mostra a trajetória, as conquistas, as novidades e os planos para o futuro de uma fundação que tem muito que dividir com suas parceiras. “A fundação procura disponibilizar para outras fundações sua experiência no gerenciamento de projetos de pesquisa”, afirmou Alfredo.

Confira e entrevista da íntegra:

A Fundep foi criada para apoiar projetos da UFMG, mas cresceu tanto que apoia projetos de outras instituições. Em que momento isso passou a acontecer? Como foi esse processo de mudança do estatuto?

O Decreto nº 7.423/2010 permitiu que as fundações pudessem atender a outras Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), eliminando a exclusividade com a ICT de vinculação direta. Assim, a Fundep buscou a autorização dos Ministérios da Educação (MEC) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para apoiar também outras instituições. Atualmente, a Fundep é credenciada para apoiar a UFMG e possui autorização para apoiar outros importantes centros de ensino e de pesquisa do país. Isso ocorreu em função da demanda das ICTs e da comprovada experiência e competência da fundação no gerenciamento de projetos de pesquisa.

O Estatuto da Fundep estabelece que uma de suas finalidades é "cooperar com outras instituições da sociedade", na área específica de sua competência, em especial, nos campos da ciência, pesquisa e cultura em geral. Atendendo a esse preceito, a Fundep vem atuando como fundação de apoio de renomadas instituições de ensino e centros de pesquisa que, assim como a UFMG, necessitam de suporte para facilitar a vida do pesquisador, permitindo que ele possa disponibilizar o seu tempo preferencialmente para a sua atividade de pesquisa.

Até hoje, temos autorização para apoiar outras 13 ICTs. Para essas instituições, a Fundep desenvolve, basicamente, o mesmo atendimento que é proporcionado à UFMG.

A instituição conseguiu a certificação ISO 9001. Como foi o processo?

O processo envolveu um longo trabalho de planejamento, com engajamento de praticamente toda a equipe de colaboradores da fundação. As ações estruturadoras foram iniciadas com o desafio de adaptar os processos de gestão aos padrões reconhecidos mundialmente. A concomitante implantação do Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) foi ao encontro desse objetivo, tendo como principais atividades a padronização de processos, a capacitação dos colaboradores e a atualização permanente de normas e regras. Nesse contexto, fez-se necessário repensar todos os modelos de trabalho, traçar novas metas de atuação e criar mecanismo inovadores que permitissem a ampliação da qualidade dos serviços prestados, garantindo mais agilidade, transparência e excelência no atendimento ao pesquisador.

O resultado foi que, em 2013, o SGQ da fundação foi submetido a um órgão externo – a Det Norske Veritas (DNV) – para verificação de sua eficiência de acordo com padrões internacionais de qualidade. O Conselho de Acreditação Holandês Raad voor Accreditatie (RvA) recebeu a recomendação da DNV e certificou a Fundep pela sua gestão administrativo-financeira de projetos de ensino, pesquisa, extensão e apoio institucional à norma ISO 9001:2008. Esse processo deve ser revalidado periodicamente. No ano passado, a Fundep foi alvo da auditoria de manutenção, que confirmou a evolução dos processos que compõem o Sistema de Gestão da Qualidade.

Qual a importância para a instituição de possuir essa certificação?

Acreditamos em uma citação, que vale para tudo, de que "a única componente estável da natureza é a mudança". A certificação é um instrumento que nos indica a qualidade das mudanças que estamos promovendo na instituição, resultando numa melhoria contínua em quantidade e qualidade. A melhoria contínua é um dos pilares que estruturam a Fundep. A conquista dessa certificação permite também uma maior segurança institucional, controle interno e monitoramento da satisfação dos coordenadores de projetos sobre os serviços prestados, de forma a orientar a atuação e investir no aprimoramento permanente. Assim a fundação consolida seu compromisso constante em proporcionar excelência no gerenciamento de projetos, confirmando a premissa de qualidade como um pilar indispensável.

Quais sugestões você daria para aquelas fundações que buscam ou pensam em buscar a certificação?

Acreditamos que a institucionalização de uma política de trabalho colaborativa é essencial para quem busca a certificação. Entender e melhorar continuamente os processos e metodologia de trabalho é um procedimento que precisa ser realizado por todos e para todos. Nesse sentido, traçar um planejamento estratégico de construção coletiva torna-se fator fundamental para o alcance de importantes marcos no âmbito institucional, como é o caso da ISO 9001. Entretanto, não acreditamos que a certificação se justifica se procurada a partir da premissa de aperfeiçoamento de processos. Na realidade, a Fundep está estruturada a partir de três bases: o cliente, o objeto e a inteligência de negócios. Nosso cliente é o pesquisador, que é exigente, diverso e complexo, em função do objeto do seu trabalho, que é a pesquisa científica. Para isso, temos várias ações direcionadas para o aperfeiçoamento no sentido de “conhecer o cliente e o objeto”. Com relação à inteligência de negócios, precisamos ter muita clareza sobre a missão das fundações de apoio e, somente assim, poderemos desdobrar nas questões relevantes para obtenção da certificação.

A Fundep criou recentemente a Fundepar. Qual foi o objetivo da criação?

A Fundep Participações S.A. (Fundepar) foi criada em 2012 para apoiar empresas emergentes oriundas de pesquisas realizadas na UFMG. Ela aporta recursospara que professores, pesquisadores e alunos da universidade viabilizem e estruturem startups com vistas à comercialização de produtos inovadores. Com esse programa, a Fundep é a primeira fundação de apoio do Brasil a investir capital próprio em empreendimentos dessa natureza. Também inédito no país, o modelo de financiamento segue a tendência de experiências bem-sucedidas de universidades estrangeiras. Essa é uma iniciativa comprometida com o futuro. Iniciativa dessa natureza, impensável entre as IFES algumas décadas atrás, hoje é uma realidade e sua experimentação pode nos dar uma vantagem competitiva já que a interface entre a universidade e o mundo empresarial passou a ser tratada de forma indissociável e poderá gerar novos modelos para reinventar a universidade e as atividades empresariais. Expressões como “as novas fábricas são as universidades” já estão na mídia e refletem o fato de que os produtos demandados pela sociedade são hoje mais valorizados pelas externalidades do que pelo seu conteúdo material e tecnológico. 

Como a empresa funciona e quais soluções ela promove?

A Fundepar prevê o aporte de recursos próprios em empresas emergentes criadas a partir de projetos de professores, pesquisadores e alunos da UFMG. Os recursos serão aplicados na estruturação de empresas startups, com o intuito de transferir inovações para o mercado.

O aporte é feito mediante participação acionária minoritária, de até 49%, por meio de compra de ações ou títulos de dívida conversíveis em ações. Além de oferecer os recursos financeiros, a Fundepar participa ativamente da gestão das empresas investidas, integrando seu Conselho de Administração permitindo, por um lado, que se tenha controle sobre a empresa e, por outro, que a Fundepar aporte conhecimento na forma de inteligência de negócios.

A modalidade de investimento praticada é o seedmoney (capital semente). As empresas investidas poderão contar, ainda, com a competência da Fundep nas soluções de gestão de projetos, o que proporcionará um diferencial intangível em seu processo de valorização.

Ao apoiar a criação de empresas startups e a transferência de tecnologias, o programa visa levar inovações para a sociedade, contribuindo para o processo de evolução dos empreendimentos, fornecendo capital e know-how para que a empresa possa atuar autonomamente no mercado.

Qual a diferença, em termos de atuação, da Fundep e da Fundepar?

A Fundep é uma entidade de direito privado, reconhecida pelos Ministérios da Educação (MEC) e da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) como fundação de apoio. Com seus 40 anos de experiência, sua finalidade é, por meio da gestão administrativo-financeira, dar suporte às atividades de pesquisa, ensino, extensão e desenvolvimento institucional de suas instituições apoiadas.

Em atendimento exclusivo, a fundação gerencia as iniciativas de todas as áreas do conhecimento, de modo que os coordenadores dos projetos possam focar as atenções em suas principais atribuições: a pesquisa. Enquanto isso, a Fundep conduz e oferece ações da área financeira, de pessoal, contabilidade, auditoria, prestação de contas, assessoria jurídica, compras e importação, entre outras. Nesse sentido, a Fundep não é uma fonte de financiamento dos projetos, pois gerencia iniciativas previamente selecionadas por agências de fomento. No momento, estamos em processos de ampliação do programa, à procura de novos parceiros para o empreendimento.

Ao ampliar o seu escopo de trabalho, com a criação do seu Programa de Investimentos (Fundepar), a Fundação oferece mais um diferencial para os pesquisadores da UFMG. A Fundepar aporta recursos próprios em empresas. Trata-se de um mecanismo sustentável financeiramente para aprimorar a relação universidade-empresa e, consequentemente, a transformação de conhecimento em desenvolvimento.

Com o modelo de governança semelhante ao de fundos de investimento, a Fundepar reconhece o cenário e as características da área de C,T&I, assumindo o seu compromisso com a inovação. A instituição atua de maneira flexível, não se limitando ao segmento financeiro, sendo que suas atividades não possuem prazo para término.

No momento, estamos em processos de ampliação do programa, à procura de novos parceiros para o empreendimento.

Nesses 40 anos, quais as conquistas da Fundep o senhor destacaria como mais importantes?

Eu prefiro responder a essa questão olhando não para a Fundep, mas para o nosso cliente preferencial, a UFMG. Eu tenho mais tempo de serviços de UFMG que a Fundep tem de vida e, portanto, sinto-me à vontade para afirmar que a UFMG não teria feito as conquistas que fez sem a Fundep. A UFMG é, quaisquer que sejam os parâmetros, uma das melhores universidades deste país, inclusive com projeção internacional em algumas áreas. Portanto, a maior conquista da Fundep é ter ajudado a colocar a UFMG na posição em que está hoje. Entretanto, é preciso registrar de forma enfática que isso somente foi conseguido a partir da escolha preferencial de atendimento “ao pesquisador”.

Quais são os planos para o futuro? Algum projeto interno que será implantado em breve pode ser destacado?

Para o futuro, trabalhamos em três perspectivas: como estaremos no final de minha gestão, em 2019; como estaremos quando completarmos 50 anos, em 2025; e como estaremos daqui a 20 anos. Quatro questões podem ser utilizadas para exemplificar isso. Primeiro, estamos reestruturando nossas gerências de atendimento ao cliente (pesquisador). Se antigamente essa atividade podia ser pensada e estruturada em, basicamente, uma pessoa pelo porte acanhado das atividades de pesquisa conduzidas no país, hoje isso demanda uma complexa estrutura de pessoas para fazer o atendimento com eficiência. Um foco prioritário para nós tem sido a capacitação dos “analistas de projetos”. Eles são tratados de forma diferenciada por entendermos que constituem a interface preferencial entre a Fundep e os pesquisadores. A complexidade e a dimensão do conjunto de nossos clientes nos exigem correspondente complexidade no atendimento.

Segundo, estamos procurando promover contínuas e robustas modificações na área de Tecnologia da Informação (TI). Não concebemos qualquer chance de sucesso sem uma TI forte, contemporânea, dinâmica e inovadora gerando facilidades para nossos clientes. Terceiro, estamos estruturando um setor de Controladoria, que irá permitir trabalhar os parâmetros associados à inteligência de negócio no estado da arte, para fazer a instituição avançar. Dessa forma, temos conseguido obter informações que levam a decisões de grande envergadura para gerar as rupturas necessárias e projetar o futuro. Finalmente, estamos aperfeiçoando nossa interface com novos clientes, investindo em uma postura proativa na busca de novos parceiros. O aumento da competência nessa atividade criará maior poder de interatividade com os financiadores de projetos de pesquisa.

Em depoimento no site da Fundep o senhor fala sobre a reinvenção da fundação. O que, de fato, significa essa reinvenção?

Nesse caso, já não mais estamos falando da Fundep, exclusivamente. Quando pautamos a “reinvenção”, estamos simplesmente procurando internalizar algo que é universal. Do cosmos, aos pequenos constituintes da matéria, à complexidade de estruturas como a vida e as estruturas sociais, “a única componente estável da natureza é a mudança”, como já mencionamos acima. Como consequência, temos que em time que está vencendo é que se mexe. Entendo que a Fundep é uma instituição vencedora e, como tal, tem uma tendência a se acomodar e gerar zonas de conforto. Portanto, nossa preocupação é criar um ambiente que rompa com o conservadorismo, a acomodação e o conforto. Quando as pessoas entendem essa perspectiva de eternas mudanças, se sentem mais motivadas para o trabalho em prol da instituição. Cada conquista é celebrada coletivamente e as pessoas se sentem parte.

A dificuldade vem do fato de que mudar é perigoso e muitas pessoas procuram se ancorar nessa premissa para criar as acomodações. Para esses, sempre digo que mudar é perigoso, mas não mudar é a certeza da morte. Em um mundo de incertezas, sem aventuras desproporcionais, cultuamos o erro como processo de aprendizagem, estimulamos os experimentos e compartilhamos as lições aprendidas. Dessa forma, criamos uma inteligência coletiva na instituição em que, externamente, nos apresentamos com a certeza de que a fundação é mais do que a soma de seus colaboradores. Isso posto como premissas básicas, o resultado é um ambiente propício ao que chamamos de eterna reinvenção, com pequenas aprendizagens que catalisam para o todo, propiciando um comportamento sistêmico. 

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